|
SOFRIMENTO NO GETSÊMANI “Deus meu, eu clamo de dia, porém tu não me ouves; e de noite, mas não achodescanso.” Salmos 22:2 Na noite de Páscoa, na estrada que vai de Jerusalém a Betânia, em algum lugaralém do Vale do Cédron, nas escarpas ocidentais do Monte das Oliveiras,conhecido como Getsêmani (gath shemani, que significa “prensa de azeite”),ocorria um espetáculo de significado monumental. Caminhando com passosvacilantes, Jesus de Nazaré apareceu, profundamente entristecido, e com voztrêmula falou a seus apóstolos favoritos, Pedro, Tiago e João: “A minha almaestá triste até a morte; ficai aqui e vigiai” (Marcos 14:34). Esse não era o Jesusque eles tinham visto em Sua Transfiguração havia pouco tempo. Depois de umperíodo de exaustão e repetidas orações, ele olhou para o céu e disse: “‘Pai, sequeres, afasta de mim este cálice; todavia, não se faça a minha vontade, mas atua’. E então apareceu um anjo do céu e lhe deu forças. E, entrando em agonia,ele orou mais intensamente: e seu suor transformou-se em gotas de sangue quecaíram ao chão” (Lucas 22:42–44). Lucas, o autor da passagem, era um clínico,um grego nativo da Antioquia, que escrevia nos distritos de Acaia e Boécia. Eleera bem educado, conhecia o idioma aramaico e estava familiarizado com asculturas judaica e greco-romana. Concluíra seus estudos na cidade de Tarso e eraamigo íntimo de Paulo. Ele colheu informações de testemunhas oculares edocumentos e escreveu seu evangelho em 61 d.C., aproximadamente, emboraalgumas fontes datem-no de 63 d.C. Lucas era um historiador preciso, com umtexto elegante marcado por cadência leve e vocabulário prodigioso. Pareceestranho que nenhum dos outros evangelhos contenha informação sobre o suor desangue ou o anjo consolador. Mas Lucas era médico, e, portanto, mais sensível aobservações médicas e científicas do que Mateus, Marcos ou João. Além disso,ele deve ter feito perguntas às suas fontes e, assim, buscado precisão. Finalmente,muitos dos primeiros escribas cristãos deliberadamente deixaram esse tipo dematerial de fora de seus trabalhos pelo temor infundado de inimigos como Celsoou Porfírio, que atacavam a credibilidade dos evangelhos. Mais tarde, quandoesses temores foram colocados de lado, numerosos códigos dos primeirosescritores foram resgatados, e dessa forma não restou sombra de dúvida sobre aautenticidade da passagem de Lucas.SUANDO SANGUEAs palavras de Lucas – “E seu suor transformou-se em gotas de sangue quecaíram ao chão” – têm atormentado racionalistas e teólogos por séculos. Lucasestaria utilizando uma expressão alegórica e figurativa ou uma pessoa podemesmo suar sangue? Em primeiro lugar, não há razão para acreditar que Lucasquisesse usar suas palavras em sentido figurado, já que não existe significadoalgum inerente à expressão. Segundo as regras da linguagem, uma expressãoalegórica e figurativa não seria possível; não podemos usá-la em novo sentidoapenas pela polêmica em si. Por exemplo, “ele entornou o caldo” ou “ele chutouo balde” são expressões figuradas com significados inerentes que as pessoasrelacionam a elas. Não é o que se dá com as palavras de Lucas. Em segundolugar, existe uma rara condição médica chamada hematidrose, também conhecidacomo Sudorcruentus, Sudor Sanguineus, Suerdesany ou hemorrhagia percutem.A condição é definida no Dicionário Médico Stedman como excreção de sangueou pigmentos de sangue através do suor. Algumas das primeiras referências aesse fenômeno fisiológico incluem observações de Aristóteles: “Algum suor comsuor sanguinolento” (Hist. Animal III, 19). A hematidrose é também citada nolivro de Hobart, Medical Language of St. Luke* (1882). Tanto o dr. RylandWhitaker, em seu artigo “A Causa Física da Morte de Nosso Senhor” (1935),quanto o dr. A. LeBec, em seu “A Morte da Cruz” (1925), acharam diversosindícios sobre a hematidrose. LeBec indicou que, em muitos casos, glóbulosvermelhos no suor foram revelados claramente sob as lentes do microscópio.Uma busca na vasta literatura médica revelou que um número significativo decasos de hematidrose foram gerados por extremada reação de ansiedade motivadapelo medo. A associação com o medo pode ser sentida de forma contundente emum estudo de J. H. Pooley em 1884, com base em casos fundamentados. Oestudo de Pooley incluía seis casos, entre os quais o de um prisioneiro condenadoque exibia essa condição enquanto estava sendo levado para execução naguilhotina ou ao patíbulo para enforcamento; o caso de uma mulher que foivítima de tentativa de estupro e o caso de um marinheiro que manifestou acondição durante violenta tormenta em alto mar. Nesta última situação, oaterrorizado marinheiro começou a suar sangue profusamente e não conseguiafalar durante a tormenta; mas, quando a tempestade passou, o suor de sangueparou e sua voz voltou ao normal. Em 1918, o dr. C. T. Scott descreveu um casoraro de uma menina de 11 anos que vivia resguardada pelos pais, já quemanifestava intenso pavor de ataques aéreos. A criança passou a ter surtosfreqüentes de hematidrose, que começavam na fronte, uma semana depois dehaver ficado extremamente assustada com uma explosão de gás na casa ao lado,enquanto ela ainda estava na cama. Exames de sua transpiração feitos nomicroscópio revelaram a existência de glóbulos vermelhos e brancos. Em 1967,os doutores R. G. Gadzhiev e A. M. Listengarten estudaram um caso dehematidrose numa jovem que começara a suar sangue aos 19 anos. Isso aconteciaquando a paciente ficava nervosa, excitada, preocupada e assustada.Casos de hematidrose foram relatados nos Estados Unidos por Mitchell, em1880; na literatura francesa, por Broeg, em 1907, e por Darier, em 1930; naliteratura russa, por Lavsky, em 1932, e por Gadzhiev e Listengarten, em 1962;na literatura alemã, por Ledalius, em 1683, Tittel, em 1876 e Riecke, em 1923;na literatura inglesa, em 1861, por Chambers, e em 1918, por Scott. O caso deLavsky foi associado com mudanças psicológicas e comportamentais. Na maioriados casos, glóbulos vermelhos foram observados na transpiração, logo após aanálise microscópica. Nenhum sangue ou outras anormalidades físicas foramencontradas nos exames seguintes para justificar o fenômeno, e a desordem nãoparecia responder a tratamento. Holoubek e Holoubek elaboraram um relatóriocontendo 76 casos e os agruparam em indivíduos com doenças sistêmicas,menstruação irregular, esforço excessivo, causas desconhecidas e origenspsicogênicas (ocorrências simples, recorrentes e estigmáticas). Eles concluíramque “os fatores psicogênicos presentes em uma situação de medo extremo ou emum estado de contemplação mental intensa são os fatores motivadores em amplonúmero de relatos”.MEDO E HEMATIDROSEPara entender como o medo causa hematidrose, é necessário aprender algunsfatos médicos básicos sobre o sistema nervoso autônomo, a anatomia dasglândulas de suor, os efeitos da ansiedade e como se inicia a “reação lutar oufugir”.O Sistema Nervoso AutônomoO sistema nervoso autônomo consiste de uma divisão simpática (DS) e umadivisão parassimpática (DP). Juntas, elas controlam várias funções do corpo,como a freqüência cardíaca; os movimentos do trato gastrointestinal; o calibredas válvulas sanguíneas; a transpiração; as contrações ou o relaxamento dosmúsculos da bexiga urinária, da vesícula biliar e dos brônquios; a abertura e acontração das pupilas; e a acomodação. Em termos práticos, as duas divisõespodem ser consideradas antagônicas, isto é, um sistema reage de forma oposta aooutro. Por exemplo, a DS aumenta a freqüência cardíaca durante a excitação e aDP a diminui. A DS ativa e a DP desativa as glândulas sudoríparas. A DS relaxaou dilata a pupila para que entre mais luz na penumbra e a DP contrai a pupilasob a luz solar direta, para reduzir a quantidade de luz que entra no olho. A DSrelaxa o olho para a visão a distância e a DP o contrai para a visão mais próxima.A Anatomia das Glândulas SudoríparasExistem dois tipos de glândulas sudoríparas: exócrinas e apócrinas. As glândulasexócrinas são as principais glândulas do suor, e estão distribuídas por toda asuperfície do corpo; de acordo com vários estudos, somam cerca de dois milhões.São menores que as glândulas apócrinas e têm formato tubular, localizando-selogo debaixo da pele, como pode ser visto na Figura 1-2. Essas glândulas têmforma de espiral e são interligadas por numerosos vasos sanguíneos, como mostraa Figura 1-3. Os tubos são dutos que carregam o suor para fora da pele.Efeitos da AnsiedadeA ansiedade é definida pelos doutores L. D. Adams e J. Hope como umfenômeno médico que “designa um estado caracterizado por um sentimentosubjetivo de medo e uma inquieta antecipação (apreensão), comumente com umconteúdo tópico definido e associado com as sensações fisiológicas do medo:falta de ar, sensação de engasgamento, palpitações cardíacas, desconforto, altatensão muscular, aperto no peito, tontura, tremores, suor, rubor e sonofragmentado”. Muito se tem escrito sobre as bases fisiológicas e psicológicas dosestados de ansiedade, e muitos se apegam à teoria de que a ansiedade é umareação instintiva herdada do medo, uma resposta interna a situações de perigolocalizada em algum lugar do inconsciente. Estudos recentes identificaram umaárea do cérebro chamada amígdala como a “central do medo”. Quando essacentral é alertada, ela manda um “alarme de defesa” para os principais centros docérebro; estes, por sua vez, repassam o alarme para as várias estruturas do corpo,que desencadeiam os sintomas já descritos. Existem dois tipos de ataques deansiedade: o ataque agudo, que dura de alguns minutos a horas, e o ataquecrônico, que pode durar de horas a anos. O ataque agudo de ansiedade podeprovocar intenso medo de morrer, acompanhado de perda da razão, palpitações,suor, tremores, sensação de engasgamento, palidez e falta de ar. Muitosindivíduos pensam que estão sofrendo um ataque cardíaco. Esses ataques agudossão conhecidos no meio médico como “ataques de pânico”.Indivíduos podem desenvolver ataques de pânico por várias razões físicas ouemocionais. Ansiedade e depressão causam terríveis sentimentos de desconfortoe preocupação nas pessoas, freqüentemente incapacitando-as e atirando-as noestado de pânico. A fadiga, por sua vez, é uma conseqüência do esforço de selidar com o medo. Alguns dos sintomas da ansiedade incluem irritabilidade,apreensão, insônia, agitação, mudanças na freqüência cardíaca, tremor interno,palpitações, incapacidade para se concentrar e perda de apetite. Indivíduos quesofrem de ansiedade também podem reagir a qualquer estímulo inesperado. Umestado de desesperança com freqüência imobiliza a pessoa ou desencadeia crisesde choro incontrolável. As pessoas que passam por esse estado de angústiamental apresentam baixa auto-estima, sentem-se rejeitadas ou melancólicas,tornam-se reclusas e exibem extrema tristeza, desânimo, desespero,desencorajamento e falta de ambição. Freqüentemente, ouvimos pessoas queenfrentam uma crise emocional, por doença grave ou pela morte de um entequerido, relatarem que preferiam sentir dor física a encarar a ansiedade mentalpela qual estão passando. Algumas pessoas que não conseguem lidar com seustemores podem apresentar tendências suicidas e, se isso não for diagnosticado etratado a tempo, os resultados podem ser desastrosos. Como legista, autopsieiindivíduos que cometeram suicídio, acreditando ser portadores de câncer ou outradoença grave, e o resultado da autópsia simplesmente revelou que a doença nãoexistia.Lutar ou FugirO sistema do alarme de defesa, acionado pela “central do medo” no cérebro, éconhecido como a reação de lutar-ou-fugir. O sistema nervoso autônomo éativado na tentativa de proteger o corpo de algum dano. Quando uma pessoasente a aproximação de um perigo, a reação lutar-ou-fugir é ativada, colocando ocorpo em alerta total. A divisão simpática do sistema nervoso central é ativada eum composto químico similar à adrenalina, chamado catecolamina, é produzido,acelerando a taxa cardíaca, contraindo os vasos sanguíneos para aumentar apressão e desviando o sangue da pele e de áreas não essenciais para o cérebro, afim de aguçar a percepção e permitir mais força e velocidade aos músculos daspernas e dos braços. Esse desvio do sangue causa a palidez característicaassociada ao medo. As pupilas se dilatam para que entre mais luz, possibilitandoque a pessoa veja melhor ao seu redor, o sangue é liberado para produzir energiaadicional, a profundidade e a taxa de respiração são aumentadas para garantir ooxigênio adequado e vários sistemas, como o digestivo, são desacelerados, paraque a energia seja preservada. Quando o perigo passa, dependendo de ter havidoconfronto ou retirada, a divisão parassimpática é ativada e o oposto acontece. Ataxa cardíaca diminui, a pressão sanguínea cai, o sangue retorna à pele e aosvasos sanguíneos das glândulas que produzem o suor, a respiração se torna maisleve, as pupilas se contraem e o sistema digestivo se torna ativo. HEMATIDROSE E O JARDIM DO GETSÊMANIEntendendo como o sistema nervoso autônomo funciona, tendo uma idéia básicada anatomia das glândulas sudoríparas e compreendendo o que é ansiedade ecomo a reação lutar-ou-fugir é ativada, é possível aplicar esse conhecimento paraentender o mecanismo da hematidrose no Jardim do Getsêmani. Eis o queaconteceu: a reação lutar-ou-fugir foi iniciada pelas águas turbulentas de medoextremo, tristeza e ansiedade que direcionavam o espírito de Jesus para os limitesextremos de Sua humanidade. “Minha alma está triste até a morte” (Marcos14:34). A missão de Jesus era clara e Ele era capaz de prever todo o espectro desofrimento e morte que estava por vir. Esse prelúdio produziu medo extremo esatisfez todos os critérios médicos para que se iniciasse a resposta simpatéticaautônoma. O coração de Jesus bateu forte em Seu peito, um suor frio semanifestou, Sua pele ficou empalidecida, Suas pupilas se dilataram, Seusmúsculos se enrijeceram e Ele começou a tremer durante toda a noite. O fato deque Jesus “caiu no chão e orou...” (Marcos 14:35) foi uma indicação de suafraqueza, já que era incomum um judeu ajoelhar-se durante a oração. Jesus orourepetidamente. Essa reação severa foi seguida de uma reação contráriadesencadeada pelo sistema nervoso parassimpático, em resposta à aceitação deJesus de Seu destino. As Escrituras nos dizem: “Ele se retirou, ajoelhou-se erezou: ‘Pai, se queres, afasta de mim este cálice; todavia, não se faça a minhavontade, mas a tua’. Então, apareceu-Lhe um anjo vindo do céu (Figura 1-1),deu-Lhe forças, e Ele, estando em agonia, orou mais intensamente (Lucas 22:41,42). A taxa cardíaca diminuiu, o corpo inteiro começou a suar, Seus músculosrelaxaram, a cor retornou à Sua face. Seus vasos sanguíneos se dilataram,precipitando o sangue nos delicados capilares que circundam as glândulas desuor (Figuras 1-2 e 1-3) e induzindo-os a irromper nos dutos, misturando osangue com a crescente quantidade de suor, projetada à superfície da peleexatamente como foi descrito por São Lucas, o médico: “E seu suor transformouseem gotas de sangue, que caíram ao chão” (Lucas 22:43).Em síntese, a explicação mais lógica para o fenômeno da hematidrose é aseguinte: o extremo estado de ansiedade mental causado pelo pavor estimulou ocentro do medo (amígdala), que mandou um alarme geral para todos os centrosdo cérebro, evocando a plena reação de lutar-ou-fugir. Essa reação durou horas,resultando em um estado de exaustão total, que cessou abruptamente quando,depois que o anjo O reconfortou, houve uma reação contrária e Ele aceitou Seudestino. Isso fez que seus vasos sanguíneos se dilatassem e irrompessemdiretamente nas glândulas de suor, terminando por sair pela pele, exatamentecomo foi descrito por São Lucas. A hematidrose é considerada um caso médicoraro, mas a presença de ansiedade e profundo pavor corresponde aos numerososcasos relatados na literatura médica previamente indicada. A hematidrose noGetsêmani foi o reflexo do extremo sofrimento mental de Jesus.SUMÁRIO DA RECONSTITUIÇÃO FORENSEÉ extremamente importante perceber que o impacto total da agonia de Jesus noJardim não é geralmente reconhecido entre os cristãos. Seu significado reside nãoapenas no fato de que Jesus passou por violento sofrimento físico durante oCaminho da Cruz, mas que Ele também foi vítima de extrema angústia mental,que drenou e debilitou Sua força física, até o ponto de total exaustão.Para reconstruir o mecanismo e a causa da morte de Jesus e assim obter umacompreensão mais precisa dos efeitos de cada fase da jornada do Getsêmani aoCalvário, o patologista forense deve examinar e reconstituir de forma crítica aPaixão (os efeitos da hematidrose, o flagelo, a coroa de espinhos, a estrada para oCalvário, a fixação e suspensão na cruz).Durante a primeira fase da jornada, ocorrida no Jardim do Getsêmani, ahematidrose ilustra a gravidade do sofrimento mental de Jesus, um aspecto quenão é reconhecido quando Sua dor é contemplada. Os efeitos da hematidrose e daprofunda ansiedade a ela associada são fraqueza geral, depressão, pequena oumoderada desidratação e discreta hipovolemia (baixo volume sanguíneo e defluido) devidos ao suor e perda de sangue – tudo isso deve ter enfraquecido Jesus antes de Sua crucificação.
|